segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Os embates culturais e ideológicos no Brasil contemporâneo: um pequeno esboço



Há duas semanas a revista carta capital teve como reportagem de capa um suposto vazio cultural no Brasil,* com destaque para o editorial escrito por Mino Carta com o título de “Imbecialização doBrasil” onde o editor discorre sobre a falta de nomes e produções culturais de peso no país, retomando os intelectuais do passado como Gilberto Freyre, Guimarães Rosa ou Candido Portnari. A matéria e o editorial chamam a atenção para a importante produção nacional – atualmente nos cinemas – “o som ao redor” de Kléber Mendonça.

Por mais totalizantes e afirmativos que a reportagem e o editorial sejam, eles possuem um fundo de verdade. Retomando a um debate puxado pela intelectualidade da USP (grande parte dela ligadas ao PT) durante as eleições do ano passado principalmente como um esforço da campanha de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, filósofos como VladmirSafatle e Marilena Chauí destacaram a perda da hegemonia cultural da esquerda para principalmente as igrejas de culto neopentecostais.

A cultura, assim como a política e mesmo a economia são campos da vida social que se influenciam, com um destaque para a economia onde se situa a base da reprodução social, nesse sentido há a influência, é impossível pensar a erosão cultural sem identificar nele um processo global mais amplo de construção da hegemonia de pensamento econômico político neoliberal, e sem pensar também o processo no sentido da produção cultural mercadológica.

Esse processo colocado em campo mais amplo implica na contraofensiva do capital na destruição dos direitos trabalhistas e reconfiguração da produção naquilo que veio a se chamar toyotismo, ou seja, a erosão cultural é subproduto de um processo iniciado nos anos 70 nas economias ditas centrais e que tem aplicação nas economias periféricas sobretudo nos anos 80 e 90. Pensando na realidade brasileira justamente quando a esquerda perde sua dita hegemonia cultural.

Como processo ideológico ele encontra espaço na academia, e pode se dizer que as ciências sociais sejam uma das áreas onde se encontra com mais força esse processo. Notória por nos anos 60 e 70 construir grandes teorias sobre o processo de formação social do país – é só pensar nas obras de Florestan Fernandes sobre a Revolução Burguesa no Brasil, assim como as de Nelson Werneck Sodré sobre a história militar, da imprensa, sobre a própria Revolução Burguesa, a pesquisa de Chasin sobre o integralismo de Plínio Salgado, de Carlos Nelson Coutinho sobre o estruturalismo – a partir dos anos 80 as ciências sociais já profundamente inseridas em um processo de institucionalização e expansão, viverá assim como as outras áreas da academia, um processo de precarização.

Crescerão em número as pesquisas de conteúdo mais imediatista, em detrimento das grandes discussões nacionais e epistemológicas, caminha-se muito mais na direção do irracionalismo do que das discussões racionais ou mesmo revolucionárias. Os professores serão obrigados a entrar em uma lógica produtivista de produção incessante de artigos e livros em claro detrimento da pesquisa. O abismo cultural sentido pela clara alienação em forma de conteúdos de puro entretimento da vida social, ganha na academia contornos mais sofisticados, mas tão alienantes quanto.

Pensando na suposta perda da hegemonia cultural da esquerda para as seitas neopentecostais é preciso retomar historicamente o processo de implementação das reformas de cunho neoliberal, e também a trajetória política do PT. Enquanto as condições do país iam se deteriorando, primeiro com a crise da dívida nos anos 80 e depois com o ataque especulativo e as medidas de abertura econômica que ajudaram no aumento da inflação nos anos 90, o Partido dos Trabalhadores, o partido hegemônico na esquerda brasileira dava inicio ao seu processo de constituição de ator apenas da pequena política (melhor dizendo sua institucionalização).

As seguidas crises monetárias, solucionadas pelos acordos de implantação do plano real, que trouxeram uma estabilidade cambial, a renegociação da dívida externa, e por consequências as reformas neoliberais e os ataques aos direitos trabalhistas. A população pobre, de trabalhadores informais foi a que mais sofreu com as seguidas crises, sofrimento de posses materiais que levam quase à não sobrevivência física, possibilitam um grande dano psicológico, além de encaminharem essas populações para uma própria desumanização, o que consequentemente as empurra para alternativas mais irracionais, ou seja empurra para a religião em suas formas mais fundamentalistas.

Ocorre que essa população mais pobre tinha antigamente na igreja católica e nas comunidades eclesiais de base uma grande base social e de ligação. Essas comunidades eclesiais de base eram hegemonizadas pelo PT nos anos 80, fato que perdurou nos anos 90. Mas os anos 90 trouxeram a institucionalização do PT, em um processo onde o partido ainda na oposição encaminhou seu centro ideológico da esquerda para a centro direita. Não foi um simples processo de mudança ideológica, o PT nos anos 90 dava inicio à construção da máquina eleitoral que permitiu seu sucesso na eleição de 2002, além de abrandar posições, o partido passou a receber doações de grandes empresas, e se afastar de sua base militante, que passou a ser base eleitoral. De um partido que propunha grandes transformações, ou seja, um partido da grande política, ele passou a um partido da pequena política só preocupado com os arranjos eleitorais para ganhar e se manter no poder.

As comunidades eclesiais de base sofreram, assim como outros movimentos sociais os reflexos dessa mudança de postura, sendo chamados cada vez menos para discutir os rumos, programas e pontos do partido, criando um terreno propício para não mais conseguirem responder as demandas de sua base. A base insatisfeita, desumanizada por razões econômicas, e alienadas pela falta de educação e cultura era empurrada para as soluções irracionais, a teologia da prosperidade sobe em número de fiéis na mesma proporção que a teologia da libertação sofria uma sangria publica – incentivada pela igreja católica diga-se de passagem – para matar o pensamento progressista religioso de esquerda na América Latina e assim diminuir as resistências ao neoliberalismo.

É claro há quem resista dentro das universidades ao produtivismo, dentro das comunidades eclesiais de base, a produção cultural no Brasil de obras de arte é pequena, ainda que haja exceções em todos os campos mesmo dentro do mercado. Ou seja, a situação é catastrófica como pintada pela revista sim. Talvez faltasse relacionar a situação particular que o Brasil vive, com a situação universal que se encontra, ou seja, o vazio cultural, a imbecialização, fazem parte da ideologia do capital e de sua contra ofensiva atual contra os trabalhadores, ou seja faz parte da luta de classes, e ganha no Brasil esses contornos, concorde-se ou não com a revista, ela terminou por chamar atenção, ainda que não fazendo uma conjuntura ampla para um debate necessário e do qual a esquerda tem negligenciado perdida que está em discussões da pequena política.

João Vicente Nascimento Lins 11/02/2013
*A edição da revista citada é a de número 734 de 31 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A defesa do individualismo em "A Guerra dos Tronos"



A literatura de fantasia é focada no mito do herói, sua trajetória até a redenção e a salvação da sociedade a qual pertence, por sua semelhança com os mitos redentores religiosos, a sua sensibilização com o leitor se torna mais fácil. Ao mesmo tempo ela se molda ao tempo histórico no qual ela é escrita e publicada, de Rei Arthur até Harry Potter, e terminam por representar as ideias da classe dominante.

Os romances de cavalaria como Rei Arthur eram dedicados aos destacados senhores feudais do período como os reis, ou serviam para manter a esperança de unificação através da construção de uma identidade nacional para ficar no exemplo de Rei Arthur novamente. Com o desenvolvimento da imprensa, a literatura será fundamental na construção das línguas modernas e sua disseminação, muito embora até meados do século XX a alfabetização ainda foi um luxo para boa parte da população mundial.

Com o aumento da alfabetização após a Segunda Guerra Mundial (como uma das conquistas dos trabalhadores, e para tentar combater o comunismo), a literatura de fantasia se tornará um dos nichos de mercado com mais leitores.

O maior expoente dessa literatura de fantasia moderna será o sul africano J. R. R. Tolkien, em suas principais obras, o Hobbit, e os três livros da série o Senhor dos Anéis, Tolkien criará um mundo fantástico com criaturas fantásticas, povos com uma história própria, e até mesmo uma língua (Tolkien era especialista em inglês arcaico). Serão obras lidas por milhões de pessoas, mas não isentas de polêmicas, principalmente no que diz respeito aos homens. A Terra Média, o mundo criado por Tolkien, era um retrato da própria Europa do período da Segunda Guerra Mundial, os orientais e os negros,por exemplo, são vistos de forma preconceituosa e por serem inferiores são dominados por Sauron o Senhor da Escuridão (que pode representar tanto os soviéticos como os nazistas), principalmente quando comparados à raça dos reis dos homens, nativos da Ilha de Numenor (uma clara analogia com a Inglaterra), e descendentes da união carnal entre elfos e homens.

Os Hobbits ,por exemplo, representam a aversão do autor à opressão moderna representada pelo mundo industrial, seu modo de vida simples, idílico, contrasta bem com a modernidade imposta à força por Saruman. Os cavaleiros de Rohan, fundamentais para ajudar os descendentes dos reis, os gondorianos, representam a ajuda dos estadunidenses na guerra aos ingleses para derrotar os alemães.

Colega de Tolkien, e convertido ao cristianismo, C.S Lewis outro inglês expoente da literatura de fantasia, em suas Crônicas de Nárnia, fazia uma analogia com o cristianismo. A adaptação de sua obra ao cinema, embora visando lucros semelhantes ao de Senhor dos Anéis e Harry Potter foi financiado por uma organização de cristãos fundamentalistas dos EUA, que queriam disseminar os ensinamentos cristãos presentes nas analogias das passagens da obra de Lewis.

Em Harry Potter, por mais que se dê uma nova roupagem ao mito do herói, o mal representado por Voldemort, e combatido por Potter o escolhido, lembra o nazismo, já que o antagonista defendia um mundo no qual os “não mágicos” fossem subordinados aos “mágicos”, apelando para uma pureza na “raça” dos mágicos.

Em Senhor dos anéis, Harry Potter e Crônicas de Nárnia é possível traçar principalmente no núcleo desses romances, ainda que uma tímida luta contra a opressão e contra a desigualdade, a defesa da ideia do mito do herói, da redenção, estimula por outro lado a individualidade, a luta pela liberdade, e a crença de crescimento individual como motor do sucesso do indivíduo na sociedade burguesa, alguns dos cernes da ideologia liberal propagada pela burguesia. Além de seu caráter mercadológico, já que são produtos inteiramente inseridos na moderna indústria cultural.

Recentemente a literatura de fantasia ganhou um novo fenômeno mercadológico, a série de fantasia, criada pelo estadunidense George R. R. Martin, a Guerra dos Tronos. A Guerra dos Tronos representa uma quebra paradigmática dentro desse nicho de vários conceitos, além de se constituir em uma obra que representa a consolidação dos ideais pós modernos e neoliberal pela literatura.

Na obra, a intestina e realista luta pelo poder, permeada por traições, incesto, corrupção, sexo, quebra os ideais de bondade presente no mito do herói, os protagonistas do livro, que representam a honra, um dos atributos essenciais do herói são sempre penalizados por essa honra. Como no mercado, onde o individualismo e a ânsia pela conquista de mais poder (na sociedade capitalista, assim como em Westeros, capital é poder, não à toa a casa dos banqueiros, a Lannister é a mais poderosa, e faz dos honrados Starks, gato e sapato deles) é o que move todos os personagens, todas as casas.

A destruição de crença, de valores, de paradigmas, representadas pelo pós modernismo é uma constante, apenas o individuo mais astuto, e com capital consegue vencer e prosperar, os Starks, os honrados podem ser protagonistas, mas sua honra os impede de serem ótimos competidores, ao contrário dos Lannister, que além de possuírem a base material de poder, o capital, são excelente competidores por jogarem fora qualquer acordo, amizade, laço de parentesco, em nome do poder, do capital.

Tamanha semelhança com a sociedade burguesa atual faz da obra um exemplar do realismo, e não da literatura fantástica. Ao invés da identificação direta com os ideais do mito do herói e com a religião, é justamente o que o afasta dela que torna a obra um sucesso. Como disse Karl Marx na Ideologia Alemã:

As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal [ideell] das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como ideias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, portanto as ideias do seu domínio.[1]

A literatura, assim como o cinema, pinturas, fotografia, música, não são separadas da sociedade, mas antes de tudo um produto direto da sociedade e da época histórica na qual são criadas. A literatura de fantasia, muito embora possua características claras de mercadoria, possui como outras obras culturais esse caráter duplo de mercadoria e de reprodução ideológica das ideias. Assim mesmo que dentro de analogias, a literatura de fantasia termina por disseminar as ideias da burguesia. Em sua fase de explosão com Tolkien e Lewis, ela ocorria de forma indireta, agora, com Martin e sua Guerra dos Tronos ela é latente, a busca por poder, por capital, pelo sucesso é o que vale, camaradagem, honra, solidariedade por sua vez é algo ruim, que atrapalha o individuo, que o leva ao fracasso, não importa que em uma sociedade onde o individualismo reine, a barbárie impere, afinal com tal grau de individualismo o meu sucesso permite comprar proteção contra a barbárie dos outros.

João Vicente Nascimento Lins 02/01/2013


[1] Karl Marx, Friedrich Engels - Ideologia Alemã - http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/index.htm acessado em 02/01/2013.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sobre o futebol



Antes de mais nada, parabéns ao Corinthians por vencer um adversário tão forte quanto o Chelsa. Em segundo lugar isso não é um texto de alguém com inveja, por que o arquirrival de seu time venceu um título mundial, enquanto que seu time é rebaixado no campeonato nacional.

Feito as ressalvas, o futebol, assim como cada aspecto da vida material e imaterial da nossa sociedade encontra-se extremamente mercadorizado (fetichizado). O capital dentro de seu ciclo de reprodução, torna desde a força de trabalho, as relações familiares, amorosas, sexuais, objeto de compra e venda no mercado. Uma vez que se torna produto, essas coisas imateriais atuam exercendo uma pressão subjetiva no individuo, principalmente devido ao seu caráter de construção da identidade imediata do individuo, logo se você não possui uma família, não possui um emprego, não faz sexo, há toda uma pressão externa da sociedade taxando o indivíduo como alguém que não se encaixa, o individuo não é completo, pois, não consegue “consumir” esses produtos, logo ele é fracassado e deve encontrar a solução para esses problemas na literatura de autoajuda ou então em substâncias entorpecentes seja elas ilegais ou legais.

A pressão ideológica para se construir uma identidade é tremenda, e justamente por ser ideológica, ela age na construção de uma falsa consciência, o individuo não se constrói mais enquanto aspectos políticos, enquanto o partido político, enquanto a nação, enquanto visão de mundo, mas sim enquanto o que ele consome, e nesse mundo consumista até o sistema político assume uma característica de mero consumo de mercadoria, não importa as ideias que o político defende, mas antes aquilo que o marketeiro define como prioridade.

O futebol enquanto mercadoria funciona ideologicamente de duas maneiras, na primeira ele substitui as determinações políticas de identidade do individuo por uma falsa consciência, na qual alguém que é tão explorado em uma empresa quanto o outro não tem mais enquanto inimigo quem o explora (ao contrário vende-se a ideia de que o futebol é mais democrático que a esfera econômica, afinal empregador e empregado podem levantar a mesma bandeira e serem “felizes” da mesma maneira), e sim o torcedor do time rival, entra aqui o segundo aspecto ideológico que seria a contribuição que a identidade do futebol tem para dividir a classe trabalhadora, afinal o torcedor do outro time mesmo que explorado tanto quanto eu, boa pessoa não é por que torce para o time x.

Enquanto mercadoria, ele age também movimentando enormes fatias de mercado, o de publicidade nas TVs, o de consumo de produtos diversos, alimentícios, vestuário, etc. as enormes cifras agem para afastar o consumidor da classe trabalhadora, e afastam o torcedor do time, gerando frustração de não consumo do produto pelo torcedor. Assim o futebol aliena o torcedor, mas também está alienado em relação ao seu torcedor, fato que no entanto, não diminui o ímpeto do torcedor.

Há, no entanto, aspectos mais irracionais como o fanatismo das torcidas organizadas (um polo aglutinador de ideias do lupem proletariado), que tornam o futebol quase que como uma religião, defendendo a eliminação física dos torcedores rivais, quando não, tornando extremos os preconceitos ligados à torcida adversária, contribuindo para a reificação de opressões minoritárias.

Com esse cenário extremamente pessimista, há que se pensar se o caso seria eliminar o futebol? Talvez não seja uma atitude tão extrema, o futebol, apesar de imerso em um caldeirão de irracionalidade, é também um instrumento de lazer importante ao corpo, muito embora a eliminação de suas facetas irracionais (rivalidade, ideologia, sua faceta de mercadoria), se torne assim como várias outras demandas da sociedade (reforma agrária, saúde, educação, fim da desigualdade social econômica) uma luta extremamente anticapitalista, mas que levada a cabo, possa finalmente recuperar a essência do futebol, que é o lazer.

João Vicente Nascimento Lins 16/12/2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Universidade vs Sociedade: uma falsa dicotomia



A lógica perversa de um mundo sempre do avesso, é que a população das cidades com campus universitários, entregue que estão à ideologia burguesa, vêem sempre com olhos negativos essas instituições, não por aquilo que representam atualmente (o celeiro de novas cabeças que reificam o pensamento burguês), mas sim por um ideal que a muito não existe (a universidade enquanto formadora de intelectuais que pensam toda a sociedade e soluções para os problemas da mesma).

Desse modo a universidade publica é sempre vista e a reafirmada por esses “grandes divulgadores da ideologia burguesa” que são os apresentadores de jornais “pinga sangue” como um antro de “vagabundos, usuários de drogas, filhinhos de papai etc.” Em nenhum momento há um intercambio que não seja do ódio.

A universidade por sua vez se fecha às demandas da sociedade em seu entorno presa na lógica do produtivismo fordista, e na disputa por cargos, bolsas e outras coisas do tipo que apenas reafirmam seu caráter aristocrático. Assim a barreira do ódio termina por tornar a sociedade cada vez mais individualista, consumista, “pós-moderna” enquanto que a universidade se torna cada vez mais individualista, consumista e pós moderna, ou seja, ficam todos presos em uma lógica do discurso ruidoso no qual apenas se beneficia quem está no poder econômico-político-ideológico, ou seja, a burguesia.

É tão ruidoso que não basta que um dos entes dessa equação tome posição e passe a exercer outro papel, a Universidade pode se abrir e se tornar mais democrática internamente, mas enquanto não se encaminha na desconstrução de um de seus pilares que é a formação de mão de obra qualificada para a reprodução do capital, e também para a reprodução da dominação da burguesia, dificilmente se construíra um caminho efetivo para uma universidade popular.

Em contrapartida, enquanto não se combater alguns meios de reprodução da ideologia burguesa, que incentivam o preconceito, a divisão de classe, a individualidade, atacando a segurança pessoal, sob a ameaça perene “de um favelado roubar suas coisas”, ou então “que a destruição das bases da religião pioram o mundo” (para ficar em exemplos mais imediatos), não se abrirá uma senda capaz de tornar a população mais esclarecida do papel de algumas instituições, e de sua importância, seja para reprodução da ordem social vigente, seja para ajudar na construção de um pensamento filosófico/social que nos aproxime do gênero humano.

Por mais elitista que a universidade seja, é inegável seu papel de formulação de pensamentos progressistas, ao mesmo tempo se esses pensamentos não encontram sua contraparte na materialidade que representa a maioria da população, sua classe trabalhadora, essas idéias progressistas se tornam simplesmente algo preso na casa das idéias. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora entorpecida por idéias que não sejam as suas, e que não encaminham na construção de uma realidade mais justa e progressista se torna presa indefesa para ser explorada como bem entender pelo grande capital. Assim o caminho de união do pensamento progressista universitário com a materialidade da classe trabalhadora é uma das bases (mas não a única) da construção de uma sociedade sem classes, justa e igualitária.

João Vicente Nascimento Lins 13/12/2012