domingo, 25 de outubro de 2015

Educação fast food


Charge de Vitor Teixeira sobre o Feminismo Radical


A transformação da educação em uma mercadoria (um traço marcante da disseminação da ideologia “neoliberal” na nossa sociedade), fez com que o vestibular virasse uma prova de aptidão vazia de conteúdo, tal qual a lei da selva, é o mais forte que sobrevive, no caso, quem decora mais os conteúdos cada vez mais pasteurizados que são repassados ao aluno pelos professores mais performáticos.

A essência da educação é assim quebrada, de parte importante da transmissão de valores, a “commoditie” educação vira algo passível de ser mensurado. Não se cobra o quanto o aluno compreende sobre seu entorno, absorvendo os valores repassados à ele por exemplo nas aulas de humanidades. Cobra-se as datas da Revolução Francesa, por exemplo, seus “períodos” e não o peso que algo como o Jacobinismo teve na formação dos Direitos Fundamentais da humanidade, e nem como o mesmo ainda hoje continua a gerar lutas.
           
A educação como mercadoria é assim, cria seres humanos vazios de conteúdo, tal como um fast food apenas nos enche momentaneamente, não se leva à uma formação completa do indivíduo. As escolas particulares, nesse quesito, pouco ensinam algo mais profundo do que as escolas públicas – com todos os seus inúmeros problemas – e a ensino assim, gera essa montanha de analfabetos políticos que reproduz as asneiras vistas na internet e sobretudo em alguns veículos de notícias mais tendenciosos.
           
Causa estranhamento assim, os conteúdos bem politizados, e reflexivos que a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, trouxe no ano de 2015. Tudo certo que faz uns anos, que a prova cobra de certa maneira conteúdos mais “humanos” e reflexivos. O tema da redação em 2014 por exemplo trouxe os dilemas éticos da publicidade infantil, algo complexo, afinal o cérebro da criança ainda em formação é impactado de maneira muito grande, principalmente nas áreas de certo e errado, gerando problemas mais para a frente, e estimulando tanto o consumo de brinquedos, como de alimentos processados industrialmente, contribuindo sobremaneira para a epidemia de obesidade infantil que observamos no Brasil.
           
Ou seja, foi apontado aqui, apenas dois conteúdos críticos, das dezenas que poderia ser extraído desse tema para a prova. É algo de certa maneira surpreendente e que vai na contramão da tendência. Algo no qual o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira inovou ainda mais esse ano, cobrando como mote de redação a violência contra a mulher. O assunto em questão surge em uma semana conturbada para as mulheres. Foi uma semana na qual o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, passou na Comissão de Constituição e Justiça da Casa Legislativa, um Projeto de Lei que dificulta o atendimento das vítimas de estupro por parte do Sistema Único de Saúde, e mais, piora o acesso à pílula do dia seguinte, sob a justificativa de que seria um método abortivo.
           
Fora esse tema nas “páginas políticas” do noticiário, há os temas das “páginas policiais”, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência no Brasil[1]. Esse ano teve como fatos bem impactantes, a jovem do Rio Grande do Sul que teve suas mãos e pés decepados pelo facínora de seu ex-companheiro após o termino do relacionamento.[2] O número de casos é tão grande nesse ponto, que caberia um texto inteiro de inúmeras páginas para registrar o ocorrido de um ano inteiro. Há ainda milhares de mulheres que morrem devido às consequências de abortos clandestinos. E para ficar em um exemplo ainda mais grotesco, essa semana, uma adolescente de 12 anos, que participava do realit show Master Cheff, foi vítima de pedófilos, que despejaram nas redes sociais, mensagens de que “pegariam” a garota, por conta de sua beleza[3].
           
É um tema atualíssimo em qualquer semana no Brasil, porque o machismo está presente na nossa sociedade, se reproduz todos os dias, atinge mesmo pessoas esclarecidas como progressistas, comunistas, socialistas e anarquistas, e precisa por conta disso ser combatido de todas as maneiras possíveis. O assunto da redação do Enem é escolhido com meses de antecedência, as notícias dessa semana, portanto, pouco influenciaram, mas causa alento, que ocorra nessa semana tão difícil paras as mulheres.

Uma questão de redação por si só não é uma revolução, quando vem em dias tão difíceis, torna mais palatável o dia a dia, até porque pode fazer com que inúmeros machistas não entrem nas faculdades públicas, evitando que no próximo ano ocorram trotes machistas durante a recepção das calouras.

Mas não podemos nunca esquecer, que como a educação se tornou mercadoria, os machistas podem aprender a decorar ela, sem que, no entanto, eles acreditem no conteúdo que colocaram nas redações ou questões de humanidade. A boçalidade não possuí limites e a luta contra o machismo, o racismo e a homofobia/lesbofobia/transfobia é algo que deve ser feita todos os dias, e no qual a educação terá sim um papel fundamental na transformação das futuras gerações. Basta que com isso, ela também sofra a mesma revolução comportamental que a sociedade precisa, ou seja, deixar de ser tão mercadorizada.


[1]“De janeiro a junho, o Ligue 180 realizou 265.351 atendimentos. Destes, 30.625 foram denúncias de violência, sendo a mais recorrente a física, com 15.541 casos; seguida pela violência psicológica (9.849 relatos); moral (3.055 relatos); sexual (886 relatos) e pela violência patrimonial (634 relatos), entendida como qualquer conduta que configure retenção, destruição parcial ou total de objetos, de instrumentos de trabalho, documentos, bens, valores ou recursos econômicos destinados às necessidades da mulher (artigo 7º da Lei nº 11.340/2006).
Outro dado preocupante é que quase 70% dos casos de violência sexual, o equivalente a 601 relatos, foram estupros e 166 denúncias de exploração sexual. Já os registros de cárcere privado chegaram a três denúncias por dia. Apesar de não estar entre as mais reladas, a violência sexual chamou a atenção por registrar pelo menos cinco casos diariamente, cifra considerada expressiva.
O levantamento também revela que 77,16% das mulheres em situação de violência sofrem agressões todos os dias ou semanalmente;9,57% disseram sofrer agressão algumas vezes no decorrer do mês e 5,68% denunciaram ter sido agredida uma vez.
A relação entre vítima e agressor, na maior parte dos casos, é a mais próxima possível. O balanço aponta que 82,82% das mulheres sofreram agressões pelas mãos de homens com quem mantinham relações afetivas; 11,20% por parte de algum familiar; 5,66% foram agredidas por pessoas com quem mantinham relações externas; e 0,33% das agressões foram oriundas de relações homoafetivas.”
Fonte: Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br/node/29856 , acessado em 25 de outubro de 2015.

sábado, 18 de julho de 2015

Blues da piedade



A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de exceção" em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no séculos X "ainda" sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.
(Walter Benjamin)

Esse é um trecho das famosas teses sobre a história de Walter Benjamin, seu significado, no entanto, é mais simples do que parece. Retomando o conceito de luta de classes elaborado por Marx, e no qual a classe trabalhadora no capitalismo, é uma classe tão explorada, subtraída de seu próprio direito de subsistir, sendo obrigada a vender sua força de trabalho (o último meio de produção que lhe resta) por qualquer valor para poder sobreviver.

Mas as classes, tanto a burguesa, quanto a trabalhadora não são monolíticas, são compostas por diversas frações, que terminam por cumprir determinados papéis dentro das relações de produção, mas também dentro da estrutura e superestrura que compõem a sociedade.

Por exemplo, dentro da classe trabalhadora, alguns elementos sofrem processos de opressão que fazem cumprem um papel fundamental para se manter a principal opressão – a saber, a exploração da mais valia dentro do processo produtivo – camuflada. Afinal, o trabalhador homem, ou branco, termina por sentir-se “melhor” e esquece da sua exploração, quando reproduz o machismo ou o racismo. Dessa maneira, esses elementos mais explorados sofrem uma dupla opressão, a de classe pela classe, e a da própria classe sobre si. O elemento ideológico então cumpre seu papel muito bem de camuflar as relações de exploração.

Como dito antes, as classes não são monolíticas, há por exemplo, dentro da burguesia, aqueles que apesar de sua boa condição de vida, de se identificar com os explorados, por conta de suas experiências de vida, ou por viver mesmo as opressões e por isso sentir na pele as contradições do capitalismo, “passando” de lado dentro do capitalismo. A definição de Antonio Gramsci sobre intelectuais orgânicos compreende justamente esses elementos, que passam a cumprir o papel de gerar teoria, obras, que fazem com que a classe trabalhadora, os explorados, compreendam seu papel de explorados, se organizem e passem a lutar contra essa condição.

Dito tudo isso, trago aqui uma poesia de Cazuza, que continua muito atual, mesmo 25 anos após sua morte. Cazuza era privilegiado, poderia ser um playboy, devido à sua condição de vida (seu pai era diretor da gravadora Som Livre). Mas não se prendeu nessa condição, e sofrendo ele mesmo diversas opressões (era homossexual assumido, em uma época que isso era mal visto na sociedade brasileira, e contraiu o vírus da AIDS que terminou por leva-lo à morte, em uma época que as pessoas com o vírus eram vistos como radioativos). Essa condição, fez com que ele compusesse canções marcantes tanto sobre o amor (como “Exagerado”, “Faz Parte do Meu Show”, “Codinome Beija Flor”), mas principalmente sobre as contradições da sociedade brasileira e da sociedade capitalista (como “O Tempo não Para”, “Brasil”, “Burguesia”, “Ideologia” e principalmente nesse caso “Blues da Piedade”).

Em um momento no qual disseminou-se na sociedade brasileira ideias conservadoras, que se tornaram hegemônicas, “Blues da Piedade” de Cazuza continua muito atual e principalmente um manifesto para todos aqueles que são explorados ou discriminados, seja pela cor da sua pele, por suas preferências, por sua cultura. “Blues da piedade” é um tapa na cara de Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, Eduardo Cunha, etc., a prova de que os explorados não esmorecem, não desistem e continuaram por muito tempo a ser uma pedra no sapato. Parafraseando Walter Benjamin, vamos continuar a gerar o verdadeiro Estado de exceção, aquele que serve para acabar com todas as outras “exceções”.

“Blues da piedade
(Cazuza)
“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem”


quinta-feira, 26 de março de 2015

Desmascarando o editorial da Folha contra a greve dos professores

Assembléia dos professores em 20/03/2015
“Mas, além dessa distinção funcional, as duas esferas distinguem-se ainda por uma materialidade (social) própria: enquanto a ‘sociedade política’ tem seus portadores materiais nos ‘aparelhos coercitivos de Estado’, os portadores materiais da sociedade civil são o que Gramsci chama de ‘aparelhos ‘privados’ de hegemonia’. Enquanto os primeiros como o nome indica, implicam um constrangimento do qual o governado não pode escapar (se suas determinações não são cumpridas, isso tem como efeito uma sanção coercitivamente aplicada), os segundos são organismos sociais ‘privados’, o que significa que a adesão aos mesmos é voluntaria e não coercitiva, tornando-os assim relativamente autônomos em face do Estado em sentido estrito; mas deve-se observar que Gramsci põe o adjetivo ‘privado’ entre aspas, querendo com isso significar que – apesar desse seu caráter voluntário ou ‘contratual’ – eles têm uma indiscutível dimensão pública, na medida em que são parte integrante das relações de poder em dada sociedade.” (COUTINHO, 2008, 54-55).

A mídia, faz parte daquilo que Antonio Gramsci define como “aparelhos privados de hegemonia”, ela portando, como diz essa pequena citação, cumpre um papel fundamental na sociedade, que é o de transmitir valores e ideias que por sua vez justificam e reafirmam aspectos de dominação de uma classe pela outra.

A grande mídia nesse ponto, possui um papel estratégico, além de garantir a reprodução do capital, sendo ela mesma uma cadeia produtiva dentro do capitalismo, ela cumpre um papel de disseminação ideológica para a burguesia como um todo, e para a fração da burguesia representada pelos donos dos jornais, canais de tv, etc.

Não é de se estranhar então, posicionamentos como os editoriais de “O Estado de São Paulo” de 25 de março de 2015, e da Folha de São Paulo de 26 de março de 2015, que são os dois principais jornais do país. Neles há um posicionamento frontal, contrário à greve dos professores da rede pública no estado de São Paulo.

Posicionamento que serve especificamente à um objetivo, criminalizar o movimento grevista, jogando a culpa nos professores, classificando-os praticamente de vagabundos por lutarem por seus direitos e dos alunos. Senão vejamos como é o caso de manipulação da folha:
“Em cinco dias, 232 mil servidores da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo começarão a receber R$ 1 bilhão em bônus salariais. O valor supera em 42% o distribuído em 2014. Apesar disso, a Apeoesp (sindicato dos professores) deflagrou mais uma greve. A bonificação abrange todos os funcionários porque a rede estadual superou metas pedagógicas em todos os níveis de ensino. Metade da categoria receberá ao menos R$ 3.500, cifra significativa diante do salário-base de R$ 2.416 para a jornada de 40 horas semanais. A remuneração mensal é 26% maior que o piso nacional do magistério. Não pode ser considerada atraente, contudo.”

O governador, que decidiu não negociar com a categoria, joga no pagamento dos bônus de produtividade, a esperança de minar o movimento grevista. Os bônus foram criados na linguagem da Secretaria de Educação, para na prática, incentivar as escolas a melhorarem seus índices de “produtividade” (embora não usem esse linguajar da esfera privada, na prática o desempenho acadêmico dos alunos em provas que não medem essa capacidade, mas sim a capacidade de decorar, equivale à uma produtividade média do saber, como se ele fosse igual à um outro produto da educação, tipo o lápis). Além de se utilizarem metodologias arbitrárias, há todo um estigma que perseguem as escolas que não atingem às metas, que passam a ser “vigiadas” pela secretária da educação.

O trabalho acadêmico, assim como o processo de ensino e aprendizagem não são mercadorias, como os lápis, mas tanto a Secretária de Educação, como a ideologia dominante nos quer fazer acreditar nisso. Eles são processos complexos, que dependem também de pontos subjetivos, não são iguais para todos, não podem ser aumentados através da pressão de chicotes. Assim, não é uma simples bonificação que torna a vida dos professores melhores (muito embora exista todo um discurso ideológico por trás que tente fazer os professores aceitarem o bônus como se fosse algo natural), são uma gama de coisas, como valorização profissional, condições de trabalho dignas, os alunos vivendo em condições de vida dignas também, assim como um salário condizente com sua atividade. Não há nenhuma linha que critique o valor do salário, ou mesmo do piso dos professores, apesar de ser um estado rico, isso não torna os preços mais baixos, o custo de vida, aliás tende a ser maior. O descalabro do jornal continua:
“Esta Folha há muito defende a valorização salarial da carreira docente, para que se torne capaz de recrutar e manter os melhores talentos egressos das universidades. Parte dessa melhoria deve vir na forma de premiação por desempenho, como tem feito o governo paulista, mas também é crucial elevar as quantias de referência. Trata-se, afinal, de profissão decisiva para o futuro do país. Quem trabalha duro para educar e qualificar a população merece contrapartida adequada.”

É difícil compreender, o jornal defende melhores condições de trabalho para o professor, mas ao mesmo tempo ataca a greve que luta pela melhoria dessas condições de trabalho, o objetivo aqui é claro, é não incentivar que trabalhadores lutem, afinal de contas, faz parte do discurso burguês defender como natural a diferenciação social originária da organização da produção, e tomar isso como motor da sociedade, já que o objetivo de vida do trabalhador deve ser, o de sempre se tornar patrão. Continuando:

“A Apeoesp, no entanto, ultrapassa todas as medidas do razoável. Nesta paralisação, reivindica reajuste de 75,33% nos proventos, de maneira a equipará-los com os ganhos de outras categorias estaduais que exigem nível superior. O pleito é descabido. O professorado tem obtido reajustes anuais; o último começou a ser pago em agosto. A inflação acumulada em 12 meses está em 7,7% (IPCA).”

Contrariando o próprio discurso no parágrafo anterior, o jornal que defende que os professores recebam bons salários, se coloca contrário à reinvindicação da categoria de ter seus ganhos equiparados com outras nobres profissões do estado, que assim, como professores exigem diplomas de cursos universitários.

Um exemplo cabal é que um juiz estadual ganhe por volta de 23 mil reais por mês, enquanto o professor deve se virar com no máximo 2300 reais por mês em jornada de carga cheia com 40 horas semanais em sala de aula, e precisando preparar nas suas poucas horas de descanso, aulas, com poucos recursos didáticos.

Lembra que o jornal acha natural a desigualdade na sociedade? Então, a resposta desse paradoxo é justamente isso, se o professor não está satisfeito com sua condição de trabalho, ele, que possui supostamente as mesmas condições a que o juiz teve acesso, deve estudar, passar em um concurso e virar um juiz.

O jornal faz uma defesa do governo estadual tão linda, que faria a assessoria de imprensa do governo ficar com vergonha, afinal, em um momento de fragilidade do governo, o sindicato dos professores tem a pachorra de exigir melhores salários, o país está em crise, muito embora ela não atinja o setor bancário, que deve investir em títulos da dívida do governo federal e estadual. O país de fato vive uma crise econômica, o que não impede dos trabalhadores irem atrás de seus direitos, ou coisas do tipo, afinal de contas, não há nada no contrato social, assinado por todos que impeça isso, muito pelo contrário, a constituição federal assegura greve para quase todas as categorias de trabalhadores (a exceção são os militares). Mas continuando:

“Até um desvairado militante esquerdista tem de reconhecer que nenhum governo, com a crise aguda da economia e a inevitável queda na arrecadação de impostos, pode dispor de recursos para expandir gastos de forma desmesurada. O irrealismo patente do movimento reforça a conclusão de que seu objetivo seja menos corporativista que político. Satélite da CUT e do PT, a Apeoesp se mostra inclinada a manobrar a categoria para fustigar o governo estadual do PSDB.”

Agora o jornal tenta jogar a culpa no PT (ajudando a divulgar aquela velha ideia de que tudo de ruim no país é culpa da Dilma), ou seja, a greve é uma suposta manobra do PT para enfraquecer o santo Geraldo Alckmin. Não custa lembra que embora a Apeoesp seja um dos maiores sindicatos da América Latina e do Brasil, o que teoricamente a tornaria um dos mais poderosos sindicatos do mundo, isso não se traduziu em número de greves, ou mesmo de atividades contrárias ao governo do estado de São Paulo nos últimos 12 anos. Ao contrário, caso o PT de fato quisesse atazanar a vida do tucanato paulista, ele poderia parar todos os setores do funcionalismo público do estado que são filiados à CUT.

E o PT não faz isso, porque não quer ir ameaçar seus vínculos estreitos com os setores da burguesia nacional à nível nacional, ou alguém duvida que a FIESP não olharia torto para o Palácio do Planalto caso houvesse greves de todos os sindicatos filiados à CUT. Fora o alto grau de desmobilização que atinge a categoria dos professores e todas as outras. Vivemos em um tempo em que a solidariedade de classe, um elemento que une professor e metalúrgico foi praticamente extinto pela disseminação da ideologia da desigualdade que o jornal propaga.

Um outro elemento que joga por terra essa afirmação é a condição de precarização que atinge os professores, caso a Apeoesp usasse toda a força que possui, não haveria bizarrices como as categorias de contrato temporário do estado, já haveria a hora atividade, e muito provavelmente não haveria o fechamento de salas, bem como as precárias condições de ensino que existem em todo o estado de São Paulo, afinal, quando essas medidas fossem anunciadas, bastaria ao sindicato decretar greve para derruba-las o que não é o caso. A luta por melhores condições de trabalho, é algo puxado nos últimos anos pela oposição da Apeoesp, e que quando não convém a direção, nem é encampada. Por fim:

“Para isso, não hesita em usar as famílias de 4 milhões de alunos como peões no xadrez partidário. Centenas de milhares deles são forçados a perder aulas, mesmo que a paralisação não atinja os proclamados 60% da categoria. Ao cruzar os braços poucas semanas depois de iniciado o ano letivo, os professores em greve deixam a seus alunos a lição de que o ensino figura entre as últimas de suas prioridades.”

O jornal passa ao ataque direto contra a categoria, visando sua criminalização, lembra que foi dito que o jornal defende a desigualdade entre trabalhadores e o individualismo, então, ele joga aqui com as famílias, apontando para um suposto problema de falta de sensibilidade dos professores para com seus alunos. Quando é justamente ao contrário.
Para começar as condições de ensino na rede pública são tão catastróficas, que interromper ou não as aulas, pouca diferença faz para a vida dos alunos, eles não deixam de aprender por conta dos professores não estar em sala de aula, mas sim pelas péssimas condições das escolas, que contam com poucos recursos pedagógicos. E por fim, os professores não lutam apenas por melhores salários, mas também contra as péssimas condições de trabalho que existem nas escolas, e que impossibilitam o aprendizado dos alunos. Os professores não devem ser atacados por lutarem, ao contrário, deveriam ser recompensados sejam pelas péssimas condições que enfrentam todos os dias para exercer seu ofício, seja por lutarem contra essas péssimas condições.

Como dito anteriormente, a Folha e o Estadão cumprem uma função social estratégica na sociedade, um texto de poucas linhas como esse, destila toda uma gama de preceitos ideológicos, que terminam por cumprir um objetivo específico, disseminar as bases da ideologia da burguesia, que são o individualismo e a desigualdade, ou seja o jornal joga com coisas que eles utilizam em outras colunas e reportagens, assim como nesse editorial, para fazer com que os trabalhadores acreditem que a desigualdade social é natural, e que sua superação também é obra do esforço individual, com isso o ataque aos professores é uma manobra para algo maior, mas não deixa de cumprir dois objetivos bem específicos.


COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. 3ª edição. São Paulo: Cortez, 2008.
FOLHA DE SÃO PAULO. Editorial: Deseducação pela greve. 26 de março de 2015. Fonte: <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/03/1608224-editorial-deseducacao-pela-greve.shtml> Acessado em 26/03/2015.


João Vicente Nascimento Lins

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O futuro da educação brasileira em jogo no Paraná


A crise novamente bate à porta do Brasil, e como sempre a burguesia e o Estado bate nos trabalhadores para evitar que seus lucros sejam ameaçados. As milhares de demissões no setor privado aumentam todos os dias, e à elas soma-se as ameaças no setor público. O trabalhador sofre assim duas vezes, ao perder seu emprego e ao ter seus direitos atacados pelo Estado para "suavizar" a queda de lucro da burguesia.

Não se tratam apenas de direitos diretos, mas também do sucateamento de serviços públicos, como hospitais, escolas e até mesmo serviços policiais.

Tal realidade pode ser vista nos cortes aos direitos trabalhistas e previdenciários feito pelo governo federal.

Mas a ofensiva contra o trabalho é suprapartidária e atinge todos os níveis do Estado (municipal, estadual e federal, mas também no legislativo, executivo e judiciário), assim faz parte dessa ofensiva o aumento das passagens de ônibus municipais, e os diversos cortes orçamentários.
O que leva esse texto ao estado do Paraná. Beto Richa do PSDB assumiu o governo do Paraná em 2011, após 8 anos de governo de Roberto Requião. Logo quando ele assumiu tratou de promover cortes em todos os setores do funcionalismo público. No entanto, o governo não cortou dinheiro do pagamento de dívidas e das despesas com publicidade e propaganda.

O resultado foi a reeleição de Beto Richa ainda no primeiro turno em 2014, com tal respaldo de popularidade, o governador sentiu-se livre para aprofundar seus ataques. Começou no final do ano passado ao aprovar o fim das eleições para diretores de escolas e uma contribuição para aposentados, por último foi o atraso do pagamento dos professores referente a janeiro.

Mas em janeiro que veio o verdadeiro pacote de maldades, em menos de uma semana, o governo cancelou o pagamento do um terço de férias de todos os funcionários por tempo indeterminado. Depois veio o cancelamento do pagamento de rescisão dos contratos dos professores temporários (para muitos o salário do mês de janeiro, enquanto não são recontratados para as aulas). Após isso a revisão das atribuições de aula dos professores dos concurso de 2014. Um novo plano para diminuir a autonomia das universidades estaduais. Diminuição dos cargos de professores e funcionários temporários. A cereja do bolo foi um pacote de mudanças nos direitos dos funcionários públicos retirando direitos constitucionais como o qüinqüênio.

Devido à amplitude de ataques, o pacotão da maldade do Paraná, caso aprovado representa um enorme retrocesso de direitos trabalhistas no funcionalismo público que irá legitimar ações semelhantes em outros estados e municípios.

Por conta disso os funcionários públicos do Paraná se organizaram na última semana, organizando greves. Por isso amanhã, a luta dos trabalhadores do Paraná para pressionar a Assembléia legislativa e evitar que o pacote seja aprovado.

Destruir direitos trabalhistas de qualquer categoria é um retrocesso para todos os trabalhadores, somente sua luta é capaz de evitar esses retrocessos. Uma greve vitoriosa no Paraná servirá de exemplo para os professores de outros estados se organizarem contra os pacotes de maldades que os governos de todos os estados preparam.


TODO APOIO AOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS DO PARANÁ!!!